Transtorno da compulsão alimentar periódica: o que é isso?
Com o aumento da prevalência mundial de pessoas com graus variáveis de excesso de peso, nota-se um aumento paralelo e proporcional do interesse dado aos tratamentos para a obesidade.No Brasil, estima-se que 34% das pessoas apresentam sobrepeso. Um tópico particular da questão vale ser lembrado: o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), também conhecido por Transtorno do Comer Compulsivo ou Compulsão Alimentar (estes nomes não são os corretos). Aproximadamente 75% das pessoas que apresentam este transtorno são obesas. Aproximadamente 30% das pessoas obesas que procuram tratamento especializado apresentam este transtorno alimentar.Ele é caracterizado por uma ingestão de grande quantidade de alimentos, num tempo pequeno, com uma sensação de perda de controle e arrependimento. Para a realização do diagnóstico, este padrão alimentar deve ocorrer ao menos duas vezes por semana por, no mínimo, seis meses e não podem estar presentes os comportamentos excessivos voltados para a perda de peso, como na bulimia nervosa* (veja no final deste artigo as características deste transtorno). Como exemplo, comer três cheeseburgers, um milk-shake tamanho família, duas coxinhas, uma barra de 200 g de chocolate, cinco pastéis e um refrigerante em menos de duas horas. Eu não fiz as contas mas, certamente, isto representa uma quantidade altíssima de calorias.
Como se caracteriza o TCAP?Os critérios mais aceitos atualmente são aqueles propostos pela Associação Psiquiátrica Americana, em 1994. Estes são:A. Episódios bulímicos recorrentes. Um episódio bulímico é caracterizado por ambos os seguintes:(1) Comer, num período pequeno de tempo uma quantidade de comida maior do que a maioria das pessoas comeria sob circunstâncias similares;(2) Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio.B. Os episódios bulímicos estão associados a três ( ou mais) do seguintes:(1) Comer muito mais rapidamente do que o habitual;(2) Comer até se sentir desconfortavelmente cheio;(3) Comer grandes quantidades de comida quando não fisicamente com fome;(4) Comer sozinho por se sentir envergonhado pela quantidade que se come;(5) Sentir-se mal a respeito de si, deprimido ou muito culpado após comer assim.C. Angústia em relação aos episódios bulímicos está presente.D. Os episódios bulímicos ocorrem, em média, pelo menos 2 dias por semana, por 6 meses.E. Excluem-se Anorexia** e Bulimia nervosas.
O TCAP é sinal de problemas psicológicos "escondidos"?Apesar de aproximadamente 40% das pessoas que apresentam este transtorno apresentarem algum outro quadro psiquiátrico em associação (como quadros depressivos e ansiosos), a resposta a esta pergunta é um retumbante NÃO.As teorias que associam os excessos alimentares a características mal adaptativas de personalidade estão sendo paulatinamente abandonadas nos meios científicos especializados.Mas, se ser obeso e ainda por cima ter um hábito alimentar oculto (os episódios ocorrem, na maior parte das vezes, quando a pessoa está sozinha) já é um grande estigma, imagine ter um quadro psiquiátrico junto! Infelizmente, a sociedade está longe de entender que alterações psiquiátricas não são sinônimos de loucura ou debilidade mental e que uma grande parte destas alterações tem tratamento médico eficaz.O transtorno parece ser, isto sim, conseqüência de dietas repetidas com reduções muito grandes de calorias e sem balanceamento nutricional a que pessoas obesas estão sempre se expondo.
Como se trata o TCAP?A primeira coisa a fazer é evitar jejuns de mais de 4-5 horas de duração (café com adoçante não quebra jejum...), pois estes favorecem o aparecimento e a manutenção dos episódios bulímicos e evitar mais ainda dietas milagrosas e desequilibradas do ponto de vista nutricional.Existem duas abordagens para o TCAP que devem ser utilizadas em conjunto: tratamento farmacológico usualmente com drogas antidepressivas que inibem a recaptura de serotonina (nunca se automedique!) e a terapia cognitivo-comportamental, uma forma particular de psicoterapia que visa à resolução dos problemas e não sua interpretação psicológica. Além destas, a reeducação nutricional é mandatória.No caso de o paciente apresentar obesidade associada, esta deve ser tratada em paralelo, pois dietas com reduções acentuadas de calorias podem piorar o padrão alimentar e, conseqüentemente, o próprio excesso de peso.O tratamento deve ser crônico e feito por equipe multiprofissional especializada. Além disso, os eventuais quadros psiquiátricos associados devem também ser tratados.Caso você apresente um padrão alimentar que lhe pareça "estranho", perca o medo e a vergonha, esqueça dos preconceitos e procure o serviço de Psiquiatria de um Hospital Universitário em sua cidade.* Características básicas da bulimia nervosa• Comer, num curto período de tempo, uma grande ou imensa quantidade de comida;• Sensação de perda de controle sobre o que ou o quanto se come;• Comportamentos não apropriados e recorrentes, visando não ganhar peso como: vômitos auto-induzidos; uso inadequado de laxantes, diuréticos ou outras medicações, lavagens intestinais, jejuns prolongados ou exercícios excessivos;• Sintomas acima ocorrem, em média, duas vezes por semana por pelo menos 3 meses;• A auto-avaliação está excessivamente centrada no peso e na forma corporal.** Características básicas da anorexia nervosa• Recusa em manter o peso corporal acima ou no menor peso recomendado para a idade e altura;• Medo intenso de ganhar peso ou ficar gordo, mesmo que com peso abaixo do normal; -----Alteração no modo usual de sentir o peso ou a forma corporal;• Influência exagerada do peso ou forma corporal na auto-avaliação e negação da gravidade do peso baixo atual;• Em mulheres que já iniciaram a menstruação, presença de amenorréia, ou seja, interrupção dos ciclos menstruais sem outras causas por pelo menos 3 meses (se os ciclos só estiverem presentes durante o uso de hormônios, considera-se também como amenorréia.)
Fonte: Doutor Adriano Segal, médico psiquiatra formado em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP de São Paulo, com residência médica no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo.
Com o aumento da prevalência mundial de pessoas com graus variáveis de excesso de peso, nota-se um aumento paralelo e proporcional do interesse dado aos tratamentos para a obesidade.No Brasil, estima-se que 34% das pessoas apresentam sobrepeso. Um tópico particular da questão vale ser lembrado: o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), também conhecido por Transtorno do Comer Compulsivo ou Compulsão Alimentar (estes nomes não são os corretos). Aproximadamente 75% das pessoas que apresentam este transtorno são obesas. Aproximadamente 30% das pessoas obesas que procuram tratamento especializado apresentam este transtorno alimentar.Ele é caracterizado por uma ingestão de grande quantidade de alimentos, num tempo pequeno, com uma sensação de perda de controle e arrependimento. Para a realização do diagnóstico, este padrão alimentar deve ocorrer ao menos duas vezes por semana por, no mínimo, seis meses e não podem estar presentes os comportamentos excessivos voltados para a perda de peso, como na bulimia nervosa* (veja no final deste artigo as características deste transtorno). Como exemplo, comer três cheeseburgers, um milk-shake tamanho família, duas coxinhas, uma barra de 200 g de chocolate, cinco pastéis e um refrigerante em menos de duas horas. Eu não fiz as contas mas, certamente, isto representa uma quantidade altíssima de calorias.
Como se caracteriza o TCAP?Os critérios mais aceitos atualmente são aqueles propostos pela Associação Psiquiátrica Americana, em 1994. Estes são:A. Episódios bulímicos recorrentes. Um episódio bulímico é caracterizado por ambos os seguintes:(1) Comer, num período pequeno de tempo uma quantidade de comida maior do que a maioria das pessoas comeria sob circunstâncias similares;(2) Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio.B. Os episódios bulímicos estão associados a três ( ou mais) do seguintes:(1) Comer muito mais rapidamente do que o habitual;(2) Comer até se sentir desconfortavelmente cheio;(3) Comer grandes quantidades de comida quando não fisicamente com fome;(4) Comer sozinho por se sentir envergonhado pela quantidade que se come;(5) Sentir-se mal a respeito de si, deprimido ou muito culpado após comer assim.C. Angústia em relação aos episódios bulímicos está presente.D. Os episódios bulímicos ocorrem, em média, pelo menos 2 dias por semana, por 6 meses.E. Excluem-se Anorexia** e Bulimia nervosas.
O TCAP é sinal de problemas psicológicos "escondidos"?Apesar de aproximadamente 40% das pessoas que apresentam este transtorno apresentarem algum outro quadro psiquiátrico em associação (como quadros depressivos e ansiosos), a resposta a esta pergunta é um retumbante NÃO.As teorias que associam os excessos alimentares a características mal adaptativas de personalidade estão sendo paulatinamente abandonadas nos meios científicos especializados.Mas, se ser obeso e ainda por cima ter um hábito alimentar oculto (os episódios ocorrem, na maior parte das vezes, quando a pessoa está sozinha) já é um grande estigma, imagine ter um quadro psiquiátrico junto! Infelizmente, a sociedade está longe de entender que alterações psiquiátricas não são sinônimos de loucura ou debilidade mental e que uma grande parte destas alterações tem tratamento médico eficaz.O transtorno parece ser, isto sim, conseqüência de dietas repetidas com reduções muito grandes de calorias e sem balanceamento nutricional a que pessoas obesas estão sempre se expondo.
Como se trata o TCAP?A primeira coisa a fazer é evitar jejuns de mais de 4-5 horas de duração (café com adoçante não quebra jejum...), pois estes favorecem o aparecimento e a manutenção dos episódios bulímicos e evitar mais ainda dietas milagrosas e desequilibradas do ponto de vista nutricional.Existem duas abordagens para o TCAP que devem ser utilizadas em conjunto: tratamento farmacológico usualmente com drogas antidepressivas que inibem a recaptura de serotonina (nunca se automedique!) e a terapia cognitivo-comportamental, uma forma particular de psicoterapia que visa à resolução dos problemas e não sua interpretação psicológica. Além destas, a reeducação nutricional é mandatória.No caso de o paciente apresentar obesidade associada, esta deve ser tratada em paralelo, pois dietas com reduções acentuadas de calorias podem piorar o padrão alimentar e, conseqüentemente, o próprio excesso de peso.O tratamento deve ser crônico e feito por equipe multiprofissional especializada. Além disso, os eventuais quadros psiquiátricos associados devem também ser tratados.Caso você apresente um padrão alimentar que lhe pareça "estranho", perca o medo e a vergonha, esqueça dos preconceitos e procure o serviço de Psiquiatria de um Hospital Universitário em sua cidade.* Características básicas da bulimia nervosa• Comer, num curto período de tempo, uma grande ou imensa quantidade de comida;• Sensação de perda de controle sobre o que ou o quanto se come;• Comportamentos não apropriados e recorrentes, visando não ganhar peso como: vômitos auto-induzidos; uso inadequado de laxantes, diuréticos ou outras medicações, lavagens intestinais, jejuns prolongados ou exercícios excessivos;• Sintomas acima ocorrem, em média, duas vezes por semana por pelo menos 3 meses;• A auto-avaliação está excessivamente centrada no peso e na forma corporal.** Características básicas da anorexia nervosa• Recusa em manter o peso corporal acima ou no menor peso recomendado para a idade e altura;• Medo intenso de ganhar peso ou ficar gordo, mesmo que com peso abaixo do normal; -----Alteração no modo usual de sentir o peso ou a forma corporal;• Influência exagerada do peso ou forma corporal na auto-avaliação e negação da gravidade do peso baixo atual;• Em mulheres que já iniciaram a menstruação, presença de amenorréia, ou seja, interrupção dos ciclos menstruais sem outras causas por pelo menos 3 meses (se os ciclos só estiverem presentes durante o uso de hormônios, considera-se também como amenorréia.)
Fonte: Doutor Adriano Segal, médico psiquiatra formado em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP de São Paulo, com residência médica no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo.







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